
Nota: 9,8
Um álbum que cicatrizou o ano de 2010 com uma viagem épica da música pop.
Kanye West carrega consigo um talento admirável, ele consegue aplicar suas personas nas canções que assina. Enquanto traz consigo o rap, sua raíz, soltando e sendo censurado com 15 ou 20 palavrões por música, suas faixas não podem ser consideradas essencialmente filhas do hip-hop. Ele encontra, seja nos refrões ou em trechos, espaços preciosos para tornar uma simples confissão numa história com começo meio e fim. As supracitadas personas de West poderiam não ter suportado a pressão que ser um ídolo pop nos dias de hoje exige. Mas Kanye acaba de inaugurar um capítulo na música popular, independente de cor ou credo, que não só dá mais brilho ao gênero como atraí e conquista os ouvidos mais criteriosos.
Kanye tinha muito em sua mente quanto se enclausurou com suas fantasias em Honolulu noHawaii onde iniciou seu projeto “Good Ass Job”. Em maio, Kanye lançou junto com Dwele o single “Power”, como um termômetro cheio de segundas intenções. O videoclipe, dirigido porMarco Brambilla põe Kanye West no papel de uma divindade e seus conflitos internos – era só o começo; a fotografia do vídeo é de tirar o fôlego.
West continuou alimentando seus perfis nas redes sociais com um sucesso que soava ser assessorado. Assim, com os fãs próximos e atraindo os curiosos para seu novo trabalho, ele nomearia, por definitivo, seu quinto disco deMy Beautiful Dark Twisted Fantasy: um conjunto de alusões onde a beleza diz sobre suas superações nas musicais, o negro sobre sua cor, que ele, diferente de seu ídolo-fascínio, orgulhou-se em manter, e a fantasia perturbada que denomina o teor psicodélico e subjetivo que suas novas criaturas carregam.
West, como o próprio já veio a alegar, não é Michael Jackson. Sem dançar e coreografar, ele teria de superar a sombra de seu ídolo de alguma forma; e então ele se tornou um produtor-cinco-estrelas que além de mixar faixas antigas, canta e compõe em diversos instrumentos com uma simplicidade absurda. Mas sua fome era ainda maior: e então ele dirigiu o lançamento de seu disco para o mundo. Um videoclipe abre-alas de mais de meia-hora, um curta-metragem: dirigido, produzido e atuado pelo próprio, “Runaway” é indispensável para todos que tiveram um pingo de curiosidade em saber “quem é esse cara que mistura rap e arte”.
Por toda a extensão, só me lembro de ter pulado duas faixas do disco. O trabalho tem uma história muito linear, apesar de inspirar a atemporalidade. Dark Fantasy é uma dessas faixas que eu, em certas ocasiões, pulei por não suportar a voz de acompanhando em tão alto agudo dizendo “So High”, ponto que pode ser bem pessoal. Mas a música carrega uma das melhores letras que Kanye já produziu com seu estilo pouco-se-importando e mago das referências (ele cita, por exemplo, o grupo Kings of Leon na passagem “Sex is on fire, I’m theking of LeonaLewis”; a primeira faixa do disco cuida assim, bem da introdução do disco.
Georgeous é a segunda faixa que eu simplesmente pulo, e dessa vez os motivos não são tão pessoais. Ela parece ter sobrado ou feita de má vontade, o que, sempre, prejudica um trabalho impecável. Sua ritmação massante e os trechos encomendados a Kid Kudi são insuportáveis e não é possível encontrar um eufemismo para isso. Power, o primeiro grande single do disco, vem para salvar a decolagem. A faixa é dançante e tem muita atitude. Acompanhado ou não pelo videoclipe brilhante – que é o melhor videoclipe de 2010, apesar de ter pouco mais de 1 minuto – essa canção é ambiciosa como o projeto que Kanye desenhava em sua mente quando se isolou no Hawaii.
All Of The Lights é o grandioso carro-chefe do disco. Não há dúvidas quando se consta que ele é apresentado com uma introdução chamada All Of The Lights Interlude. Neste hit, que foi montado com uma intenção evidente para ser um arrebatador de recordes, Kanye West convidou artistas latentes como Rihanna (que está sereníssima), Kid Kudi e Elly Jackson (La Roux). A faixa ainda aparece, misteriosamente assinada por Elton John, Alicia Keys, Tony Williams, Charlie Wilson, The Dream, Ryan Leslie e Fergie (Black Eyed Peas). O mistério sobre a composição fica no ar, o videoclipe, não menos polêmico, já foi proibido em diversos países por seu teor “iluminado”. Segundo alguns especialistas da saúde, o excesso de flashes e luzes que o vídeo exibe por segundos pode causar convulsões à vitimas da epilepsia fotossensível.
Nas primeiras letras da faixa, Kanye pode revelar do que se trata a faixa: “Algo está errado / Eu seguro minha cabeça / MJ (Michael Jackson) se foi… nosso mano morreu.” Jackson ainda é homenageado no curta-metragem quando a faixa toca – ele parece tema de uma parada. Seria uma referência a MJ? Em frente, Kanye o fará acreditar que a história contada é uma pouco mais alheia que pode parecer.
Os vocais de Bon Iver – banda folk norte-americana – abrem Monster e revelam o quanto West está a fim de tornar MBDTF um caldeirão borbulhante de variedades. A música é robusta, musicalmente ou o que mais que possa lhe interessar. Iver começa alertando que vai desligar as luzes – de All Of The Lights? – e esconder o brilho para uma noite em que ele questiona se estaria você disposto a sacrificar sua vida. Monster vem para perturbar qualquer tipo de convicção positiva. Como a vida, de Kanye ou a sua, o twisted fica representado nessa mudança no meio do álbum. A virtuosa canção foi pensada nos mínimos detalhes, seu criador se apresenta como o monstro-filho-da-puta. Não se trata de Thriller, Monster tem um teor menos apocalíptico e, graças à letra de Nicki Minaj e a intevenção de Jay-Z (parceiro de longa data de West), mais profundo.
So Apelled tem é menos carregada de subjetividade, e chega a lembrar o desbocado perfil do Twitter de Kanye West. Na faixa ele critica e joga toda a merda no ventilador. A merda, segundo West, está representada pelo cenário arrogante do Hip Hop americano que, de forma “ridícula”, tenta expor uma invencibilidade surreal. Um pouco de interpretação e logo se nota que invencibilidade é o paradigma que West definitivamente quebra com este disco.
A alucinação de West em sua viagem pessoal parece ganhar asas como Devil in New Dress.Segundo sua letra, acompanhada pelos vocais sampleados (e modificados) de Smokey Robinson’s (que lembra MJ nos tempos de Jackson 5), nós amamos Jesus mas se aprende muito com o Satã. A jogada com as palavras sensação e pecado (Sin-sation) são jogados contra a óbvia sabedoria popular de que a mulher se rende com mais facilidade ao pecado levando o homem consigo.
A oitava faixa do disco começa com uma simples nota de piano: aparentemente se trata de um ládistorcido. Runaway nomeia o curta-metragem e é uma das melhores faixas deste álbum épico revelando que a fuga de Kanye é uma das noções básicas para quem quer compreender seu trabalho. A faixa é até um pouco megalomaníaca em sua letra quando esta é constratada com sua simplicidade musical. Com um corpo que oferece uma batida industrial e três ou quatro notas de piano, a canção ganha um poder arrebatador em sua execução embebida numa letra construída com ironia e depressão. No videoclipe (que faz parte do curta-metragem de mesmo nome) West parece um maestro a guiar as bailarinas numa improvisação. O refrão desta faixa é assinado por West e Pusha T em mais uma parceria de sucesso da dupla.
Baby, eu tenho um plano: corra o mais rápido que você puder.
Os últimos batimentos cardíacos de Runaway deixam uma textura noise e assim, na seqüência, conhecemos a faixa mais completa da carreira de Kanye West. Hell of Life é uma fabulosa história sarcástica totalmente emancipada por West. Ele assina desde a letra, os instrumentos até os vocais e os refrões. E se sua voz deixa a desejar a alguns críticos, seu poder como letrista compensa tudo. A essência que essa faixa tem me agrada muito e ela consegue chegar mais alto ao lado de uma poesia desbocada onde o poeta está fascinado por uma nova droga.
Você perdeu sua cabeça? / Alerte-me quando você achar que passamos da conta/ Chega de drogas pra mim/ Boce** e religião é tudo que eu preciso.
John Legend tem uma das melhores vozes adocicadas da música nos dias de hoje. O relacionamento do artista o põe ao lado de Gorillaz, Jay-Z e Kanye West, lugares onde ele sempre se comporta como um coadjuvante que reveste as músicas com um charme único. ParaBlame Game, Kanye West não poderia acertar mais no centro do alvo ao chamar Legend para os vocais de uma faixa que fala de decepção e sentimentos de providos dos relacionamentos. O ouvinte que ficar até o fim ainda vai poder acompanhar uma longa sonora com Chris Rock que diz muito sobre a canção.
Os efeitos que a penúltima faixa do álbum traz arrepiam pela forma como são sincronizados com perfeição. Lost In The World, para quem não é fã de apetrechos eletrônicos, pode parecer uma faixa solta no disco. Mas a potência que essa completa declaração de amor leva consigo tem um valor incrível. Quando Kanye se afastou de seu posto social e seus problemas de outras ordens, ele provavelmente pensava em dizeres que mais tarde ganhariam uma canção com um viés de realidade. Citando MJ e seu dizer “Ma ma se, Ma ma sa, ma ma coo sa” West consegue, mais uma vez, conceber uma obra de arte.
O disco terminará então no seu player com uma faixa entitulada de Who Will survive in America, ou “Quem sobreviverá na América” com um poema de Gil-Scott Heron sobre a nova maneira de viver no país. Sabiamente, no fim de um trabalho que teve/tem/terá todos os holofotes da mídia, o super-star-rapper-produtor-diretor Kanye West pretende deixar uma mensagem mais “localizada” aos seus ouvintes ao fim de um trabalho (o qual ele participou de TODAS as etapas) quase irretocável.
